Nem oblíqua, nem dissimulada... livre

18/09/2019

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Eu acho difícil você não conhecer Capitu. Mesmo que não tenha lido o livro, seu professor de português/literatura, com certeza, em algum momento, citou esse nome e, logo depois, veio a pergunta “Capitu, traiu ou não traiu Bentinho?”. Mas não é isso que importa aqui, porque a história da traição é um jeito de reduzir essa mulher poderosíssima que Machado de Assis criou ao que a cabeça doente de Bentinho pensava dela. Acredito que não era essa pergunta que Machado queria que fizéssemos. Não era nisso que ele queria fazer a gente pensar.

Antes de qualquer coisa, pra você que tá perdido, um breve resumo: Maria Capitolina Santiago, ou simplesmente Capitu, é a principal personagem feminina da obra 'Dom Casmurro', escrita por Machado de Assis, o grande mestre na arte de confundir nossa mente, mas, também, de fazer a gente se apaixonar por cada palavra que ele escreve. Espero até o final da vida conseguir ler tudo que ele produziu.

O livro inteiro é narrado por Bento de Albuquerque Santiago, conhecido como Bentinho (ou mais tardiamente, Dom Casmurro). Gira em torno da sua história e da desconfiança (quase certeza, na cabeça ciumenta dele) de que foi traído por sua amiga de infância e esposa, Capitu, com seu melhor amigo Escobar. Sem provas concretas, só os sinais que a imaginação fértil, e doentia, diga-se de passagem, dele enxergava. Já deu pra perceber que eu não gosto do Bentinho?

Bom, eu aprendi na faculdade de jornalismo que não dá pra contar uma história sem ouvir todos os lados. Logo, uma versão única nunca é 100% confiável.

Em momento nenhum Bentinho deixa Capitu “falar”. Não tem nenhum capítulo narrado por ela, sempre a vemos através dos olhos dele. E, na minha mais que humilde opinião, Bento tinha, na verdade, medo e inveja da mulher que ela era, e se sentia diminuído por sua grandeza. Além da frustração de não conseguir ser “dono” dela.

Capitolina era uma mulher a frente do seu tempo: forte, questionadora, um mulherão da porra, na linguagem atual, e os homens (a sociedade no geral) não sabem lidar com mulheres livres e donas de si mesmas. Logo, nada melhor do que inventar uma traição pra colocar em dúvida o caráter dela. O livro ilustra como somos julgadas pela sociedade, sem nem termos direito de defesa.

"Capitu era também mais curiosa. As curiosidades de Capitu dão para um capítulo. Eram de várias espécies, explicáveis e inexplicáveis, assim úteis como inúteis, umas graves, outras frívolas; gostava de saber tudo."

A questão que deveria ser discutida não é se houve ou não traição, Machado deixou várias “provas” tanto pro sim, quanto pro não. Inclusive, debates pra discutir isso podem resultar em um empate, como aconteceu no que eu participei durante o ensino médio. Os dois lados tinham bons argumentos, resultado? Empate técnico. A intenção era justamente confundir nossa cabeça. É impossível provar com certeza algum dos pontos de vista.

Acredito que a verdadeira lição tá no: não se conta uma história ouvindo só um lado. Premissa básica do jornalismo. E, sendo um pouco mais ousada, talvez Machado quisesse mostrar esse medo que mulheres como Capitu causam. Escancarar a sociedade moralista da época. Mostrar que, desde sempre (e até hoje), mulheres livres assustam.

"Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem."

Eu amo esse livro e Capitu é uma das minhas heroínas favoritas na literatura, sou apaixonada por ela.

Talvez eu tenha olhos de ressaca, mas não me chame de oblíqua ou dissimulada pra tentar me diminuir. Diminuir minha força, minhas opiniões, meu jeito de ser e viver. Não me diminua pra se sentir maior. Você, homem.

Nem oblíqua, nem dissimulada... eu sou livre. Livre pra ser quem eu quiser. Livre como Capitu.

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